segunda-feira, 19 de julho de 2010

Certa vez ao ir a uma festa com um amigo, começamos a discutir sobre os filósofos pré-socráticos, que segundo ele, foram responsáveis por expurgar uma das coisas que ele considera mais ilusórias do pensamento humano: o mito. Imediatamente, perguntei o porquê da não consideração ao mito. Ao que a resposta foi bem similar ao discurso de todos os críticos do pensamento mitológico: “O mito foi a tentativa fracassada de explicar o mundo e seus fenômenos”, mais ou menos assim. Obviamente ele não levou em consideração toda uma gama de relatos míticos que se tornaram verdadeiros clássicos e um importante objeto de estudo tão riquíssimo. Está aí mitologia grega, romana, nórdica, etc. para exemplificar.


Ainda que vista e considerada a herança dos relatos míticos, os críticos sempre colocaram o mito como oposição ao pensamento racional. Seria apenas uma sucessão de “histórias” que tiveram a intenção de explicar o porquê das chuvas, dos trovões, da luz do sol e de outros corpos celestes, do nascimento dos vegetais, entre outras explicações, até a chegada dos primeiros filósofos que ao se utilizarem do método tido como o correto – o uso da razão – desmistificaram essas primeiras explicações.

Zeus: O rei dos deuses da mitologia grega

Ao isentar-se dessas formas míticas e religiosas, o homem estaria no ápice de sua maturidade, segundo Augusto Comte (1798 – 1857), fundador do positivismo. Aliás, coube ao Positivismo as maiores críticas ao mito, o empobrecendo e principalmente, o reduzindo com relação à ciência, que se torna a partir daí a única forma do conhecimento verdadeiro. Porém, essa forte convicção em que só a ciência é capaz de guiar ao saber possível, pode resultar em outros mitos igualmente prejudiciais. Pra citar um exemplo, a tecnocracia, que é justamente o resultado maléfico do positivismo em sua forma mais ideológica.

Augusto Comte: o fundador do Positivismo


A importância do mito deve ser levada em consideração, não só por ser a primeira leitura do mundo, ou a base que formaria a compreensão do ser, mas pela herança que nos foi dada mesmo que culturalmente. Nossa imaginação guia tudo o que pensamos e queremos, e ela juntamente com os pressupostos míticos formou uma raiz para todos os trabalhos da razão.

Mas e o mito nos dias de hoje? Deixemos muitas das fórmulas que se baseiam os relatos para as religiões e as ideologias. O que importa aqui é evidenciar o que está no cotidiano de todos, até mesmo nos críticos. Muitas palavras que usamos são verdadeiros modelos universais que estão presentes na natureza inconsciente e primitiva de todos nós, como “liberdade”, “amor”, “saudade”, “prazer”, “mãe”, “lar”, etc. No cinema, por exemplo, é possível ver a luta entre o bem e o mal e um herói que possui poderes invejados por todo o homem moderno que sonha em superar sua própria impotência. A mídia faz com que atores, músicos, políticos, esportistas e outros se tornem verdadeiras representações de anseios como “sucesso”, “beleza”, “talento”. Algumas comemorações como aniversários, casamentos e formaturas funcionam como verdadeiros “rituais de passagem” que estão sempre presentes no dia-a-dia.

Gisele Bündchen: o arquétipo da mulher perfeita

As palavras que citei e os heróis do cinema são clássicos exemplos de arquétipos, ou seja, possuem valores universais que tem significações iguais para todos, em maior ou menor grau, assim como apresentei a figura dos artistas. Gisele Bündchen, por exemplo, é o arquétipo da mulher perfeita. É assim que nos é convencionado. Tudo isso é herança do pensamento mitológico e evidencia que passado tantos milênios, é possível encontrar ressonâncias míticas em todos nós.

É claro que o mito no homem contemporâneo não apresenta a mesma força que produz no homem primitivo, por questões óbvias. Também não tem como desmerecer a ciência e o pensamento racional, por questões igualmente óbvias (afinal eu me considero uma pessoa racional, até certo ponto). Reconheço que a reflexão permitiu que muitos dos mitos tidos como prejudiciais fossem contrariados, mas não por isso deveremos desmerecer o credo e a cultura dos antepassados gregos, hindus, indígenas, etc. Pois “a sabedoria é o equilíbrio. O mito propõe, mas cabe a consciência dispor” (Gusdorf in Mito e Metafísica).